Em 2020, em um dos períodos mais complexos da história recente do Brasil, a Anistia Internacional Brasil lançou Toda Friday é Black, uma campanha criada para transformar a Black Friday em um ponto de partida para uma discussão muito maior: o enfrentamento permanente do racismo estrutural e das violações de direitos humanos no país. A iniciativa foi lançada em 27 de novembro de 2020 e propunha algo que ia além de uma ação pontual de comunicação: transformar todas as sextas-feiras em oportunidades de reflexão, posicionamento e mobilização antirracista. Segundo o material oficial da campanha, tratava-se da maior iniciativa da Anistia Internacional Brasil dedicada à pauta antirracista desde Jovem Negro Vivo, de 2014.
A campanha nasceu de uma construção coletiva que reuniu a Anistia Internacional Brasil e organizações diretamente ligadas à luta pelos direitos da população negra, entre elas Geledés -- Instituto da Mulher Negra, Criola, Olodum, CEDENPA e CONAQ. A estratégia utilizava justamente a enorme visibilidade da Black Friday para provocar uma inversão de significado: deslocar o termo "Black" do universo do consumo para uma conversa sobre população negra, consciência, igualdade racial e direitos humanos. "Toda Friday é Black", "Toda sexta é preta", "Toda sexta é nossa" e "Toda sexta é consciência" passaram a formar um vocabulário de mobilização que poderia continuar existindo muito depois daquela sexta-feira.
Dentro dessa construção coletiva, Sandro Bianco e a SB\Design ficaram responsáveis pela dimensão visual do projeto, em parceria com Mauro Silva, da RioHux, desenvolvendo uma linguagem capaz de transformar a mensagem da campanha em presença. Mais do que criar peças isoladas, o desafio estava em construir um sistema visual direto, reconhecível e suficientemente flexível para atravessar diferentes meios, escalas e situações. A identidade precisava funcionar em uma tela de celular, nas redes sociais, em conteúdos digitais e, ao mesmo tempo, ocupar arquitetonicamente fachadas inteiras através de grandes projeções urbanas.
Essa mudança de escala tornou-se uma das características mais fortes do projeto. Nas projeções realizadas em São Paulo e no Rio de Janeiro, frases como "Toda sexta é preta", "Toda sexta é dia de consciência negra", "Toda sexta é consciência. Toda sexta é preta. Toda Friday é Black" e "Every Friday is Black" deixaram de ser apenas mensagens gráficas e passaram a ocupar fisicamente a paisagem das cidades. O design funcionava como voz: tipografia, contraste, escala, repetição e espaço urbano transformavam uma mensagem em acontecimento. O próprio release da Anistia registra as projeções como parte das ações de lançamento da campanha.
O trabalho desenvolvido pela SB\Design, sob direção de Sandro Bianco e em parceria com Mauro Silva, da RioHux, partiu de uma premissa fundamental: em um projeto dessa natureza, o design não deveria disputar protagonismo com a causa. Precisava amplificá-la. A linguagem visual foi construída para ser contundente, simples, reproduzível e imediatamente compreensível. O preto, o amarelo associado à identidade da Anistia Internacional, a tipografia de grande impacto e o símbolo desenvolvido para a campanha formaram um sistema gráfico que poderia migrar entre projeções, peças digitais, redes sociais, materiais de mobilização e conteúdos audiovisuais sem perder sua identidade.
Essa lógica é particularmente importante dentro da trajetória da SB\Design e de Sandro Bianco. O projeto demonstra uma concepção de design que não se limita à construção estética de uma identidade visual. Design pode organizar uma mensagem complexa, estabelecer hierarquias, transformar estratégia em linguagem e criar sistemas capazes de funcionar em diferentes contextos. Em Toda Friday é Black, branding, direção de arte, comunicação, cultura, espaço urbano e impacto social passaram a fazer parte do mesmo sistema.
A campanha também contou com um vídeo-manifesto narrado pela atriz Juliana Alves, além de conteúdos semanais, podcasts, lives, debates virtuais, uma landing page, materiais gratuitos para divulgação e as hashtags #TodaFridayEBlack e #EveryFridayIsBlack, esta última concebida para ampliar a participação de ativistas e instituições antirracistas internacionais.
Talvez a parte mais potente da estratégia esteja justamente na transformação de uma data em comportamento. A campanha não pretendia terminar quando acabasse a Black Friday. A proposta original previa um ano de discussões e mobilizações semanais contra o racismo, criando uma plataforma permanente de conscientização e aproximando organizações do movimento negro, ativistas e pessoas interessadas em contribuir para a construção de justiça racial no Brasil.
A dimensão visual criada pela SB\Design em parceria com a RioHux precisava, portanto, sobreviver ao lançamento. Não era uma identidade para um único evento, mas uma linguagem para uma ideia que deveria continuar circulando, sendo compartilhada, apropriada e reconhecida. Essa característica transforma Toda Friday é Black em um projeto particularmente relevante dentro do trabalho de Sandro Bianco: um exemplo de como estratégia, identidade visual e direção de arte podem construir infraestrutura de comunicação para uma iniciativa social de grande escala.
A campanha ganhou repercussão na imprensa nacional e foi destacada, entre outros veículos, pela coluna de Mônica Bergamo na Folha de S.Paulo, que noticiou seu lançamento e sua proposta de manter ativa a discussão sobre racismo por meio de ações semanais. Mais importante, a iniciativa continuou evoluindo depois de 2020. A Anistia Internacional Brasil posteriormente transformou o conhecimento produzido durante a campanha em conteúdos e materiais voltados à prática antirracista, ampliando a vida do projeto para além de seu lançamento inicial.