Em 2014, um dos conjuntos arquitetônicos mais simbólicos de São Paulo voltou a fazer parte da vida da cidade. Depois de permanecer fechado por aproximadamente duas décadas, o antigo Hospital Umberto Primo, conhecido como Hospital Matarazzo, abriu seus pavilhões, corredores, quartos e jardins para Made by... Feito por Brasileiros, uma ocupação de arte contemporânea idealizada por Alexandre Allard que antecedeu a transformação daquele território na Cidade Matarazzo. Durante algumas semanas, aproximadamente 27 mil metros quadrados de patrimônio histórico deixaram de ser um espaço adormecido para receber uma das mais ambiciosas experiências culturais realizadas em São Paulo naquele período.
Mais de cem artistas brasileiros e internacionais participaram da exposição, muitos deles produzindo trabalhos site-specific em diálogo direto com a memória, a arquitetura, as marcas do abandono e as histórias acumuladas pelo antigo hospital. A curadoria e direção artística tiveram Marc Pottier como figura central, com projetos especiais associados a nomes como Simon Watson, Nadja Romain, Gabriela Maciel, Andres Sheik, Pascal Pique, Baixo Ribeiro, Ana Pato e Marcelo Rezende.
A exposição também representou um momento decisivo na história recente daquele território. Para Alexandre Allard, idealizador da Cidade Matarazzo e do projeto Made by..., a ocupação funcionava como uma declaração sobre a possibilidade de reativar um patrimônio histórico por meio da criatividade. A mostra marcou uma das primeiras grandes aberturas públicas do complexo antes de sua transformação e colocou novamente o antigo Hospital Matarazzo no imaginário de São Paulo. Anos depois, a Cidade Matarazzo continuaria seu desenvolvimento envolvendo nomes internacionais como Jean Nouvel e Philippe Starck.
O resultado extrapolou o circuito especializado. A exposição atraiu aproximadamente 120 mil pessoas, segundo registros da produção, e recebeu o reconhecimento da Associação Paulista de Críticos de Arte, APCA, como Iniciativa Cultural de 2014 na categoria Artes Visuais. Foi uma ocupação temporária, mas seu impacto permaneceu como parte da memória cultural recente da cidade.
Foi nesse contexto que Sandro Bianco e a SB\Design receberam outro desafio: transformar uma experiência essencialmente espacial, artística e temporária em um objeto capaz de permanecer. Se a exposição existia por meio da escala do Hospital Matarazzo, de suas paredes, corredores, quartos, jardins, ruínas, obras e intervenções, o livro precisava encontrar uma maneira completamente diferente de reconstruir essa experiência. Não se tratava simplesmente de produzir um catálogo. Tratava-se de criar uma segunda arquitetura para Made by... Feito por Brasileiros.
O projeto editorial desenvolvido pela SB\Design, sob direção criativa de Sandro Bianco e com colaboração do designer Marcio Pontes, levou quase um ano de trabalho. O resultado foi uma publicação de aproximadamente 500 páginas, concebida como um grande arquivo visual da exposição e, simultaneamente, como uma obra gráfica autônoma. Fotografias, obras, artistas, textos, documentos, arquitetura, memória, registros da montagem e diferentes escalas de informação precisavam coexistir dentro de um único sistema editorial. O volume e a heterogeneidade desse conteúdo fizeram do projeto um exercício radical de editorial design, information architecture e direção de arte.
A exposição não possuía uma linguagem única. E o livro não poderia fingir que possuía. O sistema gráfico criado por Sandro Bianco, SB\Design e Marcio Pontes parte justamente dessa tensão. Em vez de impor uniformidade às centenas de páginas, o grid funciona como uma infraestrutura capaz de receber situações radicalmente diferentes. Há páginas silenciosas e páginas de enorme intensidade visual. Fotografias ocupam spreads inteiros enquanto outras composições trabalham texto, detalhe, escala, vazio e ritmo. Tipografia, imagem, espaço negativo e elementos gráficos constroem diferentes velocidades de leitura.
O dourado aparece como um elemento recorrente, criando uma conexão entre a materialidade do objeto editorial, a identidade de Made by... e a monumentalidade da própria exposição. Na capa, no box, nas aberturas e nos detalhes gráficos, acabamento e conteúdo passam a fazer parte de uma mesma narrativa. O grid precisava ser suficientemente rigoroso para organizar quase 500 páginas e suficientemente flexível para não neutralizar a personalidade de mais de cem artistas. Essa contradição tornou-se uma das ideias centrais do projeto.
O livro Made by... demonstra uma característica recorrente no trabalho de Sandro Bianco e da SB\Design: traduzir sistemas complexos em sistemas de design coerentes. Nesse caso, o sistema original era extraordinariamente complexo. Um hospital histórico. Dezenas de espaços. Mais de cem artistas. Instalações site-specific. Fotografia. Arquitetura. Performance. Vídeo. Texto. História. Memória. Arte brasileira e internacional. O design editorial tornou-se a estrutura capaz de conectar essas diferentes camadas.
Existe uma relação direta entre o trabalho de Alexandre Allard, que imaginou a ocupação e a transformação daquele território, a curadoria que reuniu artistas de diferentes origens e a atuação de Sandro Bianco e da SB\Design, responsáveis por transformar a experiência da exposição em uma narrativa editorial permanente. O que existiu fisicamente durante poucas semanas passou a existir dentro de aproximadamente 500 páginas.
Grande parte das obras de Made by... foi concebida especificamente para aquele momento e para aquele espaço. A natureza efêmera da exposição tornou o registro especialmente importante. Quando as portas se fecharam, o Hospital Matarazzo começou outro capítulo de sua história. O livro permaneceu. Ele preservou artistas, obras, arquitetura, acontecimentos e atmosferas que não poderiam ser reconstruídos da mesma maneira. Nesse sentido, o trabalho de Sandro Bianco, Marcio Pontes e SB\Design ultrapassou a função convencional de design editorial. O livro tornou-se parte da memória da própria exposição.
Hoje, observar a publicação significa revisitar um momento específico da transformação cultural e urbana de São Paulo: o instante em que um hospital abandonado voltou a ser ocupado por milhares de pessoas antes de se transformar na Cidade Matarazzo. Made by... Feito por Brasileiros foi uma exposição temporária. O livro foi projetado para permanecer.